As tecnologias da informação e da comunicação (TIC) têm impulsionado a mudança desenfreada do mundo, nas últimas décadas. Já não é possível ignorar a sua influência e constância sobre os indivíduos - o uso da internet e dos telemóveis, tornou-se uma obrigação civilizacional.
São diversos os aspetos basilares da vivência contemporânea profundamente permeados e alterados pela avalanche tecnológica que se impôs e revolucionou o nosso quotidiano e se tornou uma parte indissociável da nossa vida.
As transformações produzidas são imensas e penetraram intensamente também os comportamentos individuais e coletivos e as relações interpessoais, gerando novas inquietações e preocupações pelo seu uso - e sobretudo abuso.
Uma grande inquietação prende-se com o uso obsessivo e “patológico” das TIC, que isolam o utilizador “cyberdependente” no mundo virtual, numa secundarização ou mesmo rejeição da realidade (offline), com consequências graves na sua relação familiar e social, no desempenho escolar ou profissional e, em situações mais extremas, ao nível da saúde física.
Uma outra das grandes preocupações que pontuam a atualidade, no que respeita ao uso indevido das TIC, prende-se com o cyberbullying. Embora co-mece a entrar no domínio do debate público - nem sempre com a percepção real do fenômeno antes muito circunscrito a episódios extremos que ofuscam a sua abrangência, mais trivial e mais lata - quase sempre o olhar sobre o mesmo tem estado restrito à ação de alunos sobre alunos, quando muito entre jovens adultos.
A existência de situações de cyberbullying cometidas sobre os professores não tem sido alvo da mesma atenção. A inexistência de estudos institucionais, acadêmicos ou sociológicos, não significa a inexistência do problema, nem atenta a relevância e amplitude do fenômeno.
A violência contra os professores, onde também se deve inserir a virtual, demasiadas vezes confundida com indisciplina escolar, não pode ser negligenciada nem reduzida a análises sucintas, por se tratar de um fenômeno em crescendo, potenciado pela também crescente disseminação do acesso e uso das TIC e que se reveste de muita complexidade.
A violência contra os professores existe - sempre existiu, por todo o lado -, embora sistematicamente depreciada. Atualmente, ultrapassa os limites físicos da escola e os horários escolares, propaga-se pelo mundo virtual, vitimizando e expondo o professor a todo o tempo.
São constantes os casos difundidos nos blogs, comunidades virtuais e redes sociais (Facebook, Twitter…), que em muitos casos funcionam como exorcizadores dos conflitos interiores em que mergulham as vítimas e dos sentimentos de incapacidade de (re)ação da própria classe docente.
A sociedade em geral não está sensibilizada e não tem dado a devida atenção ao problema do cyberbullying exercido sobre os professores, seja pelo genuíno desconhecimento do fenômeno seja pela pouca importância que atribui às situações. A reação, eminentemente “silenciosa” das vítimas, contribui grandemente para a manutenção do assunto na “penumbra” do conhecimento. O próprio Ministério da Educação e as suas estruturas intermédias não denotam ter percebido a sua relevância, ou não demonstram nenhuma preocupação sobre o mesmo.
A falta de sensibilidade ou recusa de reconhecimento da gravidade do fenômeno do Cyberbullying sobre os professores, pelas entidades responsáveis pela educação, e pela sociedade em geral, considerando tratar-se de um problema que apenas existe entre os alunos, fragiliza a posição da vítima. Isolada, indefesa, exposta a constantes “ataques” (24/24 horas), sem sentir apoio, solidariedade ou qualquer receptividade às suas denúncias, a vítima deixa-se vencer por um estado evolutivo de angustiosa insegurança e solidão.
A utilização patológica, indevida e ilegal das TIC (de dimensões preocupantes e em expansão) obriga a instituição escolar a colocar o cyberbullying no cerne das suas preocupações, prevenindo e combatendo um fenômeno para o qual não há um antídoto de eficácia absoluta. E ninguém está imune a um “ataque”, frequentemente cobarde, resguardado por um anonimato que as TIC potencia. Há um longo caminho a percorrer na implementação e melhoria de estratégias de intervenção proativa nas escolas para lidar com o cyberbullying, uma vez que a maioria não tem regras formais sobre o assunto e, onde existem, não são necessariamente bem compreendidas.
Fonte: CORREIO DO MINHO







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