Como não viciar o aluno na ideia de ser excessivamente competente? A bióloga e professora Vera Rita da Costa, colaboradora da CH há anos, escreve texto para o Alô, Professor que analisa a questão e apresenta uma série de conselhos.
| Dar asas ao aluno sem, no entanto, deixar de atribuir responsabilidades: um desafio para pais e professores. |
Ainda estamos excessivamente preocupados com a aquisição de conteúdos informativos em nossa cultura escolar institucionalizada. Preocupamo-nos com que os alunos adquiram informações, conheçam os fatos, as teorias e dominem os conceitos. Esquecemo-nos, no entanto, de que há outros tipos de conteúdos – relativos às outras dimensões humanas – também importantes, que devem ser colocados na prateleira de 'aprendizagens'.
Três valores parecem ser fundamentais e imprescindíveis para a aprendizagem: a resiliência, a desenvoltura e a reflexão
Como discutimos em texto anterior, três valores parecem ser fundamentais para a aprendizagem: a resiliência, a desenvoltura e a reflexão.
O que se pode fazer então para desenvolvê-los?
Pode parecer óbvio, mas a recomendação de Guy Claxton, pesquisador que levantou a questão sobre a importância de incluir esses aspectos como objetos de aprendizagem, é começar justamente por não tolhê-los.
Comece evitando aqueles fatores e situações que, em nossa tradição escolar, tolhem a resiliência, a desenvoltura e a reflexão que as crianças já possam ter e então prossiga: estimule-as, pense em meios e estratégias que enalteçam essas características, recomenda Claxton.
Um exemplo importante: a questão do certo e errado
Citando as pesquisas de vários autores, entre os quais Patricia Smiley e Carol Dweck, Claxton nos mostra que muitas crianças ainda na educação infantil, por volta dos quatro anos, já se preocupam excessivamente em parecer competentes. Elas temem errar e evitam desafios mais complexos, autoboicotando, assim, seu próprio potencial de aprendizagem.
Muitas crianças ainda na educação infantil, por volta dos quatro anos, já se preocupam excessivamente em parecer competentes
De onde veio essa característica negativa das crianças?
Muito provavelmente da atitude dos adultos com os quais convivem desde cedo.
É sabido que pais, professores e cuidadores têm papel marcante na definição de padrões de comportamento futuro das crianças, projetando sobre elas expectativas nem sempre produtivas, sobretudo quando o que está em jogo é o potencial de aprendizagem.
É de dar dó!
Os dados das pesquisas citados por Claxton revelam que muitas crianças, mesmo na educação infantil, já estão tão bloqueadas pela visão de que errar é demonstrar burrice que se tornam viciadas em parecer competentes.
Por não tolerarem demonstrar ter dificuldade ou fracassar, essas crianças tornam-se compulsivas por demonstrar brilhantismo e competência e passam a evitar novos desafios; transformam-se assim em aprendizes pouco confiantes. Pior ainda: passam a interpretar o acerto como um indicador de sucesso e de aceitação; um fator, portanto, de autoafirmação.
Se a ideia é formar melhores aprendizes – crianças que não se importam tanto em ser bem-sucedidas e, por isso mesmo, mantêm-se ativas e curiosas em relação a aprender algo novo –, as pesquisas nos dão algumas dicas importantes. Bons alunos necessitam de ambientes familiares e escolares que:
- mostrem-se estruturados.
- apresentem regras claras e as façam respeitar.
- definam rotinas regulares.
- atribuam responsabilidades.
- ofereçam liberdade para tomar decisões e buscar interesses próprios.
- apoiem as iniciativas individuais e coletivas.
- ajudem e reforcem quando necessário.
- apresentem expectativa de cumprimento de deveres e projetos próprios sem, no entanto, exercer supervisão contínua.
- encorajem e elogiem com frequência.
- relativizem o erro, apostando mais no processo de aprendizagem do que no produto final.
Fonte: CIÊNCIA HOJE







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